domingo, 20 de agosto de 2017

Sem emenda - O Estado frágil

O Estado português é gordo, mas é fraco. É pesado, mas não é firme. É um Estado fraco que torna vulnerável o seu povo. Entre incêndios, assaltos e acidentes, o Estado falhou. Nas previsões e na prevenção. Na prontidão do socorro e na rapidez da ajuda. Na humildade com que se devem tratar as vítimas, na coragem com que se reconhecem culpas, na seriedade com que se estudam as causas, no rigor com que se apuram as responsabilidades, na eficiência com que se distribuem auxílios e na honestidade com que se deveriam repartir ajudas solidárias.

São tempos de falhanço do Estado. Do Estado central e local. Do Estado político e administrativo. Do Estado civil e militar. Pelas vítimas, os acidentes de Pedrógão foram os mais dolorosos, mas não pela extensão e pela intensidade. Os fogos insistem. A prevenção continua a falhar. As comunicações permanecem erráticas e em regime de avaria. A coordenação é deficiente, foi-o desde o primeiro dia, melhorou aqui e ali por força das circunstâncias, está longe, muito longe, de ser satisfatória. Ou sequer de dar um pouco de segurança.

Há uma espécie de incúria generalizada em que se repetem os acidentes e os prejuízos. A ajuda atrasa-se. Os socorros ditos de solidariedade chegam tarde, quando chegam. Na maior parte dos casos, as ajudas imediatas para reconstrução e reinício de actividade, que deveriam demorar dias, não chegaram ao fim de semanas. Toda a gente do Estado tem algo a dizer, a garantir o que não têm e a prometer o que não podem. A culpar os outros, sempre os outros, os de baixo, os do lado, os de cima e os da oposição.

Os autarcas procuram a reeleição e queixam-se do governo, se forem de diferente cor politica, ou dos serviços, se forem do mesmo partido. O governo faz promessas e bate na oposição, esperando subir nas sondagens. A oposição garante que não quer aproveitar e não faz outra coisa. Só os bombeiros parecem estar à altura.

Preparam-se já leis magníficas, como se o problema fosse esse. Não vão faltar os planos miríficos a longo prazo, o planeamento integrado, o ordenamento estratégico e o equilíbrio sustentável. Vão demorar anos a regulamentar, décadas a elaborar e eternidades a concretizar, enquanto persiste a palha à volta das casas, o mato nos baldios e nas florestas, o matagal nos caminhos, o restolho seco, os combustíveis vegetais prontos a disparar, a insuficiência de sapadores, as falhas de comunicações… Culpas de muitos a começar pelos aldeões que não tratam das suas casas e das suas fazendas, pelos lavradores que não querem gastar, mas tão só encaixar, dos autarcas que preferem rotundas feitas pelos amigos artistas e pavilhões desportivos pagos pela União Europeia…

Em Tancos, falhou a disciplina, a responsabilidade e a noção de dever público. Falharam os militares directamente encarregados, por preguiça, por inconsciência e não se sabe se por coisa pior. Falharam os responsáveis por não ter acudido. Falharam os dirigentes militares e políticos pelo espectáculo lamentável, quase indecoroso, de esquiva culpas e de redução da importância do ocorrido.

Até uma procissão no Funchal trouxe mais de uma dezena de vítimas mortais, esmagadas por uma árvore, em acidente impensável, a que não falta desleixo e imprevidência, com uma polémica típica entre responsáveis, do proprietário à câmara, passando pela freguesia. Vai discutir-se seriamente a localização da responsabilidade entre o solo, a raiz, o tronco e os ramos ou pernadas assassinas…

Perdidos no imprevisto, os dirigentes políticos iniciam as suas intervenções com frases desajeitadas: “Trago uma palavra de esperança”… “Quero deixar uma mensagem de solidariedade”... Percebe-se logo o artificial. Sente-se a compaixão forçada do dever e do lugar comum. A esperança e a solidariedade não se anunciam.
DN, 20 de Agosto de 2017


Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Crianças à beira de passagem de peões, Barcelona – Numa avenida que nos conduz à Praça da Catalunha, onde começam as Ramblas, duas crianças esperam a sua vez para atravessar numa zebra. Apesar de plástica, a metralhadora, de aparência perigosa, deve sair directamente de um filme de ficção científica ou de um Rambo interestelar. Não fora a cor amarela e estávamos diante de verdadeira ameaça. Vivemos tempos em que as armas não só fazem parte do quotidiano, como também se transformaram em brinquedos. “Brinquedos”… não rimam muito bem com “armas”… Nem “armas” com “crianças”… Mas são estes os costumes. Esta semana, um dos assassinos das Ramblas tinha 17 anos.

DN, 20 de Agosto de 2017

domingo, 13 de agosto de 2017

Sem Emenda - As Minhas Fotografias

Casamento em São Petersburgo – É, nesta maravilhosa cidade, uma intensa actividade de qualquer dia, mas sobretudo de fim-de-semana: casar e fotografar. Nos jardins, nos palácios, diante das catedrais, à beira do rio Neva, junto à fortaleza Pedro e Paulo ou perto do Hermitage: qualquer sítio de prestígio e beleza é bom para fotografar os noivos. O gesto é tão importante que a sessão de pose pode demorar umas largas horas e exigir mudança de roupa e de maquilhagem. Até porque depois se fará um álbum vistoso a distribuir ou vender aos convidados. Por isso, quando se observa uma destas sessões de fotografia, não se vê mais ninguém, nem sequer parentes próximos. O mistério é simples: as fotografias fazem-se uns dias antes. No dia da boda, não dava mesmo jeito nenhum fazer esperar os convidados umas horas!

DN, 13 de Agosto de 2017

Sem emenda - Cem anos. Tantos anos!

Com a chegada dos dias santos de Setembro a Novembro, começam as comemorações. Na Praça Vermelha, em Moscovo, com pouco lustro e ainda menos entusiasmo. Na Praça Kim il Sung, em Pyonyang, com aprumo e disciplina. Na Praça da Revolução, em Habana, com rum e saudades de Fidel. Na Quinta da Atalaia, na Festa do “Avante”, com música e bifanas. E pouco mais. A Grande Revolução Russa está à beira de desaparecer das agendas do presente. O Comunismo, seu principal herdeiro, deixou rastos de dor, nunca se saberá se mais ou menos do que o nazismo.

O século XX ficará talvez na história como o mais sangrento. Duas guerras mundiais, uma dúzia de guerras coloniais, dezenas de guerras regionais, ainda mais guerras civis e algumas centenas de milhões de mortos por violência política. A técnica de extermínio foi elevada a cumes nunca vistos, no Goulag soviético, nos campos nazis e na revolução cultural chinesa, sem falar nas execuções sistemáticas do Ruanda e do Camboja, entre muitas outras. Foi neste século que se generalizou a tortura e se inaugurou a guerra biológica e química, assim como a explosão de bombas atómicas. Foi este o século em que os alvos deixaram de ser essencialmente militares e passaram a ser civis. De Londres a Estalinegrado e Dresden e de Pnom Pen a Alepo a Mossul, a geografia do horror de massas deixa poucas esperanças e nenhumas dúvidas.

Também é verdade que foi neste século que uma centena e meia de países adquiriram a sua independência, que o capitalismo dominante se comprometeu com a democracia, que os direitos do homem fizeram caminho, que o racismo como sistema recuou e que o desenvolvimento científico, económico e social mais progrediu. Sim. Neste balanço do século, o melhor vai para a ciência, a democracia e talvez a cultura. Mas o horror foi muito e nunca visto antes.

O pior, pela dimensão, pela violência, pelo número de vítimas e pela duração, vai para o comunismo. Ou é partilhado com o nazismo. É seguramente um dos mistérios do século, ou antes, um dos problemas difíceis de resolver: por que razão ainda há comemorações? Por que motivos ainda há quem se intitule orgulhosamente comunista? O que faz com que o antifascista seja um herói e o anticomunista um selvagem? Como é possível que, ainda hoje, universidades, escritores, políticos, intelectuais, sindicalistas e trabalhadores aceitem que o comunismo tenha sido um avanço na história da humanidade?

A guerra civil, a execução de aristocratas e “russos brancos”, o assassinato de rivais, a eliminação de democratas, os massacres de milhões de camponeses, de judeus, de cossacos e de tártaros, o Goulag contra toda a gente, a perseguição de “cosmopolitas”, intelectuais e liberais, a censura, os trabalhos forçados, a fome programada e a destruição espiritual e física de todos os que não se submeteram são os pergaminhos de um dos mais tenebrosos sistemas políticos que a história conheceu. Mas os idiotas úteis continuam a dizer que o comunismo tinha desculpa, porque era em nome do povo! Que não foi assim tão mau, porque era contra o capitalismo. Que cumpriu a sua função, porque desenvolveu a Rússia!

As sociedades democráticas conseguiram compor com o capitalismo, que, com o tempo, se foi separando da ditadura. O que nunca aconteceu com o comunismo. Este e a ditadura associaram-se sempre, sem excepção. O convívio do comunismo com a democracia nunca aconteceu. Nem sequer na China, onde o comunismo conseguiu compor com o capitalismo, mas não com a democracia.

O fim do comunismo impressiona pela sua fragilidade (François Furet), pela rapidez com que desapareceu, pela maneira como ninguém veio ao seu socorro. O comunismo dependeu do regime soviético. Acabado este, acabou aquele. O que sobra hoje é um pequeno conjunto de caricaturas: a Coreia do Norte, Cuba e o PCP…

O que os exércitos não conquistaram, a Rússia, foi obtido pelo capitalismo. O que o nazismo não conseguiu, derrotar o comunismo e a União Soviética, foi alcançado pela liberdade e a democracia. É esse o aniversário a comemorar. Por muitos anos!

DN, 13 de Agosto de 2017

domingo, 6 de agosto de 2017

Sem emenda - Deutschland

A Autoeuropa é, em Portugal, o primeiro exportador e o mais importante investimento industrial. Está em curso uma negociação difícil entre a Volkswagen e os seus trabalhadores, a fim de garantir a produção de um novo modelo, o que trará muito emprego e mais exportações. A Comissão de Trabalhadores chegou a um acordo com a administração alemã. Os sindicatos comunistas estão contra o acordo, contra a empresa e contra a Comissão de Trabalhadores que não controlam. Os sindicatos venceram uma votação. A Comissão demitiu-se, não se sabe se a pensar numa reeleição. O assunto merece atenção. Na verdade, tudo deve ser feito, com dignidade e equilíbrio, a fim manter e desenvolver a Autoeuropa.

No entanto, como disse Wolfgang Münchau, no DN, esta semana, a VW e a indústria automóvel alemã estão em perda de importância. A responsável por essa destruição não foi a concorrência que os alemães tão bem souberam derrotar durante décadas. Nem sequer foram os acordos ilegais e secretos entre construtores (VW, BMW, Mercedes, Audi…). Foi a trafulhice que os dirigentes da Volkswagen praticaram durante anos: uma das maiores falsificações da história da indústria!

A Alemanha, actualmente, não é de confiança. Foi, mas já não é. A impressão que tínhamos de uma Alemanha séria, de boas contas, trabalhadora e rigorosa desvanece-se gradualmente. Um dos valores da Alemanha no mundo, a qualidade dos seus produtos, ficou danificado. A sua superioridade perante os concorrentes está comprometida. Vão ser necessárias décadas para recuperar uma reputação perdida.

A primeira mácula contemporânea na reputação alemã foi a história de doações financeiras aos políticos e aos partidos nos tempos de Helmut Kohl. Os processos não foram concluídos, nunca se apurou a verdade e poucos foram punidos.

Depois, a manipulação das taxas da Euribor foi episódio desastrado para a reputação alemã. O assunto provocou desgaste nos meios financeiros e deixou muita gente em posição desconfortável, mas as autoridades alemãs e europeias fizeram o necessário para não levar as coisas até às últimas consequências.

A honestidade alemã foi ainda abalada pelos negócios dos submarinos, pelo menos com Portugal e Israel. Já hoje há evidência suficiente, incluindo judicial, para sabermos que não se trata apenas de boato. Para vender os submarinos, a Alemanha, com conhecimento oficial e participação privada, fez o que podia e não devia para corromper Estados, políticos e militares.

A seriedade e o rigor da indústria alemã foram destroçados com as fraudes automóveis da Volkswagen destinadas a enganar os clientes e as autoridades ambientais do mundo inteiro. Não foi acidente nem invenção fortuita de técnico atrevido: foi uma actuação premeditada e minuciosa destinada a defraudar toda a gente! Os fabricantes de automóveis destruíram a reputação e o prestígio alemães. As autoridades colaboraram e tentaram diminuir os custos, sem o conseguir. Aos países poderosos os fabricantes pagam milhões de indemnizações e multas. Nos Estados Unidos, pagaram 25.000 milhões de dólares e retomaram 500.000 veículos. Aos fracos e devedores (Portugal, por exemplo), os fabricantes limitam-se a reparar o “software”…

A Alemanha soube fazer com que os Europeus pagassem grande parte dos custos da sua unificação. A Alemanha comunista foi admitida na União Europeia, sem aprovação pela União Europeia: foi assim porque foi assim, porque a Alemanha quis e a França deixou. A conversão do Deutsche mark comunista em Deutsche mark federal fez-se em termos paritários, o que foi em grande parte financiado pelos europeus, excluídos da decisão. Gostemos ou não, estes gestos foram políticos, revelaram força e influência, não foram feitos por meios ilegais. Agora, a Alemanha está a dar cabo de si própria!

DN, 6 de Agosto de 2017

Sem Emenda - As Minhas Fotografias


Volkswagen, com sua sombra, no asfalto de Brasília, em 1971 – Eram os anos da brasa da ditadura militar (que tinha começado em 1964). Brasília, mandada construir por Kubistchek, em 1956, ainda em democracia e inaugurada pelo mesmo em 1960, encontrava-se na sua primeira fase de desenvolvimento. Mas já os carochas abundavam pelas estradas e pelas cidades brasileiras. Iniciada no final dos anos 1950, a VW Brasil é uma das maiores subsidiárias daquela marca fora da Alemanha. Como em todos os outros países, a Volkswagen convive bem com qualquer regime político, democrático ou não. Começou as suas actividades ainda com Hitler no poder. É actualmente o primeiro produtor de automóveis do mundo e o maior de Portugal. O “carocha” é o quarto carro mais vendido de sempre. E o Golf o terceiro. E era, até há pouco, uma das marcas mais prestigiadas. O que parece estar a esboroar-se rapidamente. Por culpa própria.
DN, 6 de Agosto de 2017